Onze de janeiro de 3010.
Canais de tv e rádio informaram que o último parto humano ocorrera com sucesso, foi assim que eu descobri que meu filho foi o último doce da fábrica de chocolates.
Na época, demorei a acreditar que todas as mulheres estavam estéreis, dou graças a Deus que minha mulher engravidou antes desse acontecimento lamentável.
Tal infertilidade foi prevista por uma religião chamada Makaham, que surgiu por volta de 2510. Em seu livro sagrado, consta uma previsão de que uma outra espécie surgirá em nosso planeta, uma espécie intelectualmente superior à espécie humana, chamada solamuc.
De acordo com o Makaham, os solamucs dominariam todos os recursos do planeta terra, sem precisar lutar contra a humanidade, pois quando chegassem, nós já estaríamos extintos.
O livro sagrado diz que o papel do ser humano na terra, é como o de um rato de laboratório, teríamos sido criados para testar todas as possibilidades: criar, tentar e pensar tudo que fosse possível, até onde nossos limites físicos e mentais permitissem. Assim servindo de estudo para os observadores. Quem seriam eles ? Talvez deuses, anjos, demônios ou extraterrestres, a interpretação do livro sagrado varia de leitor para leitor.
Ao longo da história, a humanidade fez muitas coisas absurdas, tão absurdas que sempre nos perguntávamos: por que alguém faria isso ?
Navegando nos mares de nossas memórias, é impossível encontrar, hoje em dia, algo que o ser humano nunca tenha feito, tentado, ou ao menos pensado.
Assim que terminamos o que viemos fazer aqui, nossas fêmeas perderam a capacidade de engravidar, pois os observadores não precisavam mais de nós.
Os fiéis do Makaham acreditam que devem preparar o território para os solamucs, não se importam com a nossa extinção, foram convencidos pelo livro sagrado de que nosso fim é uma coisa boa.
Em 3010, ano em que meu filho nasceu, percebi que já tínhamos feito tudo que éramos capazes de fazer, não existia mais nada de novo a ser feito por nós.
Se há mais de mil anos já havia quem puxasse carros com seus próprios cabelos, tentasse fazer compras com nota falsa no valor de um milhão de dólares, criasse privada portátil e até caixão em forma de refrigerante, não é de se espantar que fizemos de tudo mais de mil anos depois.
A nova espécie viria para viver uma vida diferente, sem mais testes, tudo já teria sido testado por nós, e eles saberiam cada detalhe, segundo o livro sagrado.
O gene que nos levou a fazer tantas coisas, que hoje é conhecido como gene faz-tudo, não estaria neles, e assim, eles ficariam longe de ser como nós.
Somos aberrações na frente deles, gente da nossa espécie já ousou tirar a vida dos próprios pais, dos próprios pais !
Alguns humanos famosos se manifestaram na televisão, dizendo que a nova espécie seria muito incompleta sem o gene faz-tudo, que preferiam mil vezes ter sido parte da experiência do gene do que ser como eles.
Lembraram das coisas boas que fizemos, e não só das ruins como os pessimistas como eu fizeram. Embora fosse muito bom pensar nas coisas boas que fizemos, não consegui ignorar o fato de que foram feitas com o uso do mesmo gene faz-tudo que foi usado para fazer as coisas más.
Se tivéssemos conseguido fazer só o bem, ou só o mal, talvez nunca fôssemos extintos, pois uma imensidão de possibilidades continuaria faltando.
Uma parte da população está tentando imaginar algo novo, que ainda não tenha sido criado, tentado ou pensado antes, outra parte está procurando traços de surgimento dos solamucs, e o resto está tentando entender biologicamente o que houve com as mulheres, para tentar cura-las.
Eu achei mais racional investir meu tempo em tentar descobrir algo novo.
Os livros, em conjunto com os filmes, desenhos e quadrinhos, já tinham abordado todos os assuntos, a tecnologia já tinha inventado --- em 3010 --- tudo que tinha para ser inventado, mas eu insistia em procurar.
No fundo, nós ainda temos esperanças de que se encontrarmos novidades para serem feitas, tentadas ou pensadas, nós ganharíamos mais tempo.
Os anos passaram como carros de corrida em uma competição mundial, não foram encontrados vestígios de surgimento da nova espécie, nem a cura para o problema das mulheres, muito menos conseguimos pensar em algo nunca feito, tentado ou pensado antes, pelo menos até agora.
Estou com oitenta e cinco anos, minha mulher faleceu semana passada, meu filho fora assassinado por aquela gente estúpida, que achou que ele fazia parte de uma evolução da espécie humana para a tal nova espécie, só porque era superdotado, e porque foi o último a nascer.
Infelizmente, o livro sagrado não especificou como os solamucs surgiriam, abrindo espaço para teorias como a que tirou a vida do meu filho.
Seja lá quem planejou o destino da nossa espécie e da que virá, foi bondoso comigo, me deixando existir antes do fim.
De certa forma, meu filho também teve sorte, mesmo tendo vivido apenas até os treze anos.
Tenho pena dos filhos não nascidos dos últimos humanos que tentaram trazer novas crianças ao mundo, esses não tiveram a chance de viver, era a vez deles, mas a vez deles chegou tarde demais.
Se o Makaham estiver errado, tendo se aproveitado de uma coincidência, ele pode ter sido responsável pela nossa extinção. Muitos cientistas acreditaram no Makaham e decidiram gastar o resto do seu tempo com outras coisas, ao invés de ajudar a ciência a resolver o problema de fertilidade
Os poucos cientistas que continuaram tentando, não conseguiram resolver até agora, embora não tenham desistido ainda.
Prefiro acreditar que não seremos extintos por um trote. Creio que os solamucs virão, e que cuidarão bem melhor do nosso planeta, os seres humanos nunca foram exemplares quando o assunto é o meio ambiente.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Um laboratório chamado terra
Postado por Geser Jr.
Marcadores: Ficção Científica
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