Ah! A sensação de poder voar! A liberdade de sentir o vento acariciando meus cabelos revoltos. A felicidade de poder esquecer o mundo, minhas responsabilidades, minha vida, minha identidade... O chão se aproxima a uma velocidade incrível e eu nem me atrevo a temer o que virá a seguir, pois o vento toca meu rosto como se fosse um sopro suave...
O alarme toca e eu desligo os aparelhos que me mantém conectada com aquele mundo fantástico, e de repente desejo novamente a liberdade que a realidade virtual me trás. Ela é como uma droga, sabe? Você a usa para fugir, cria seu próprio mundo, torna seus desejos suavemente reais. Mas ela sempre o faz desejar mais e mais, e quando menos se espera sua mente já não pode aceitar uma realidade concreta. É apenas um fantasma vagando pelo duro mundo real, e você passa a viver no jogo.
Eu me chamo Synn. Trabalho para a mais poderosa empresa de criação de games da terra, a Hi! Corp.. Sou o que se pode chamar de System Cleaner. Meu trabalho é simples, localizar e eliminar os junkies, usuários viciados na obra-prima dos videogames: o MMR (Módulo de Múltiplas Realidades). Eles se proliferam pelo sistema como ratos, e é cada vez mais difícil elimina-los.
Não sei bem dizer quando tudo isso começou. Talvez com os primeiros videogames, que criaram a primeira geração dos viciados em jogos eletrônicos. É claro que os consoles evoluíram muito desde aquela época remota, primeiro foi o advento dos simuladores, onde era possível criar um avatar e fazer com que ele tivesse uma vida como se fosse no mundo real, e então os jogos em rede, os controles sensíveis ao toque, as câmaras de simulação, as telas holográficas... e por fim o MMR, um simulador tão potente que criou um novo mundo. E é claro que, com a enorme biblioteca de jogos criados pelas softhouses, as possibilidades de diversão e fuga se tornaram imensas. Num dia você pode ser um cavaleiro medieval numa história de capa e espada, no outro um astro de rock, ou um cowboy, ou um gângster...
E assim começaram a surgir os junkies. Mas é claro que eles não são apenas viciados na falsa realidade criada nos laboratórios da Hi! Corp., eles simplesmente já não podem deixar o jogo, esquecem de suas verdadeiras vidas e passam a viver a falsa realidade. Não se sabe se o erro veio da máquina ou do homem, pois os junkies ficam simplesmente presos dentro do MMR, e acabam por acreditar que aquela é a realidade concreta.
Quando os primeiros erros foram detectados a Hi! Corp. quase entrou em um colapso, levando junto as softhouses afiliadas. Mas o público não foi informado de nada disso, havia dinheiro demais no negócio, era simplesmente impossível parar.
A crise durou por treze meses, e nesse tempo foram criados softwares e vírus que tinham por objetivo deter o número cada vez maior de junkies. Nenhum foi bem sucedido, e o número só crescia. Foi então que um jovem engenheiro encontrou a solução: um vírus que enfraquecia o avatar do jogador de modo que, se ele sofresse um game over, era atirado para fora da realidade virtual do MMR.
Assim os primeiros junkies foram libertados daquela prisão onírica. Mas o tempo que se levou para isso foi absurdamente grande e o jovem engenheiro teve a idéia que salvou a Hi! Corp. e suas afiliadas. Combater fogo com fogo. O vírus era lançado no avatar do jogador e então o fator humano entrava em ação derrotando o junkie e lançando-o de volta ao mundo real. É estranho pensar nisso, mas toda vez que mato alguém no jogo, estou fazendo com que aquela pessoa renasça no mundo real. Foi o que aconteceu comigo, e eu jamais superei o vício completamente, apesar dos médicos dizerem que não há nada de errado com o meu cérebro.
Estou há um ano e meio nesse negócio. O MMR já passou por cinco atualizações e expansões durante esse tempo. A tecnologia evolui cada vez mais rápido, mais do que nossas mentes podem entender, mas as falhas no sistema são sempre as mesmas. Nem mesmo Enrik, o engenheiro que salvou a realidade virtual, conseguiu supera-los, pois parte deles vem de nós, humanos. Uma máquina fisiologicamente perfeita e psicologicamente fraca.
Não posso reclamar do meu trabalho, não é nem de longe monótono, mas às vezes eu gostaria de ter uma vida normal, o que já não é possível a essa altura, graças a minha total dependência do MMR. Às vezes sonho que estou vivendo numa cidade, sem limitações de movimento ou pensamento, trabalhando em um escritório ou estudando, morando em um apartamento aconchegante com Enrik... Mas é apenas um sonho, assim como aqueles que tenho quando estou conectada ao sistema. E é claro que Enrik não sabe nada sobre isso. Duvido até mesmo que se lembre de qual é meu nome verdadeiro (o que não importa muito, pois eu mesma já o esqueci).
Não faz muito tempo que nos conhecemos. Fui uma das primeiras pessoas a quem ele procurou quando resolveu colocar junkie contra junkie. Pelo que me lembro eu fui vigésima sexta a ser libertada, quando o vírus (nós o chamamos Alfadur) ainda se encontrava em fase de teste. Ele precisava de jogadores experientes, mestres em atirar os outros para fora da arena, e eu estava lá, figurando nos rankings de jogos de tiro e estratégia.
Eu estava debilitada depois de três semanas presa no MMR, me encontrava nas instalações da Hi! Corp., recebendo atendimento e tendo minha cabeça estudada por médicos que tentavam desesperadamente encontrar algum problema para poder culpar alguém. Enrik veio e me fez a irrecusável proposta de trabalhar como System Cleaner. Aceitei, já não tinha nada a perder. Depois de ser dada como morta por uma das mais poderosas corporações do mundo fica um pouco difícil arranjar um emprego decente. E de qualquer modo, não me lembro da minha vida antes do jogo, conseqüência da versão beta do Alfadur.
Minhas primeiras missões foram testes de habilidade. Eu tinha basicamente que entrar no jogo com um avatar projetado pela equipe de segurança e vencer algum usuário fraco. Acabei por ser designada chefe da primeira equipe de junkies da Hi! Corp.. Uma decisão inútil por parte dos chefes fez com que ganhássemos o nome de “hellas”. Talvez System Cleaner seja um nome complicado demais para as mentes que só pensam em dinheiro de nossos executivos.
Fui treinada pessoalmente pela equipe que salvou a Hi! Corp., e fiquei incumbida de treinar as gerações posteriores. Missão que me foi retirada por total falta de competência. Segundo o relatório gentil feito pelo meu querido supervisor, eu sirvo apenas para atuar dentro do jogo. Má perdedora, sabe? Parece que minha cabeça só funciona direito quando é preciso vencer. Se bem que ele também citou alguns problemas comportamentais, mas não acho que isso seja importante.
Pensando melhor, eu posso de fato reclamar de alguns pontos nesse trabalho, como o fato de que há dois anos não vejo nada além das paredes do enorme complexo tecnológico da Hi! Corp., onde funciona uma universidade e inúmeros laboratórios e escritórios. Os hellas são terminantemente proibidos de deixar o complexo sem uma autorização do médico responsável. Eles têm medo que o mundo descubra a falha da toda poderosa empresa.
Um de meus trabalhos mais estranhos foi em um jogo de tiro. Um ambientezinho infernal cheio de plataformas de metal, lava e túneis. O meu favorito. Dessa vez o trabalho não era assim tão simples, tínhamos dois junkies presos no mesmo servidor, numa fase extremamente longa jogando um contra o outro. O problema demorou a ser detectado de modo que os avatares se tornaram extremamente fortes. O Alfadur foi lançado imediatamente após a detecção do erro, e os hellas teriam que entrar em ação o mais rápido possível.
Fui acordada no meio da madrugada com um alarme soando em meu ouvido. Levantei-me de modo cambaleante com a cabeça latejando – é incrível que realmente não tenham achado nada de errado com meu cérebro. Corri para a plataforma de segurança. A equipe toda reunida, mas nenhum hella à vista. Os técnicos pareciam entretidos com um diagnóstico do servidor, nós teríamos problemas, estávamos lidando com uma conexão pirata.
Enrik correu até mim com os olhos vermelhos de quem quase não dormiu e os cabelos despenteados pelos dedos nervosos que afastavam as mechas loiras dos olhos cinzentos. Eu mesma deveria estar num estado parecido depois de dois comprimidos para dormir que ainda faziam efeito.
─ Vai entrar sozinha, Synn – ele disse. Talvez não com essas palavras, mas quem se importa? – O maldito servidor pirata só suporta mais uma conexão. Tome muito cuidado, os avatares estão extremamente fortes, já estão há quase seis dias aí dentro e o Alfadur só os enfraqueceu o bastante para bani-los assim que você der um game over neles. Vai ter que se virar para conseguir armas e vida, não conseguimos fazer nada dessa vez.
Eu devo ter suspirado e jogado os cabelos para trás, sempre faço isso quando recebo más notícias, e aquelas eram praticamente: “você vai cometer um suicídio no jogo”. Entrar com um avatar fraco, um nível fraco, sem armas, com poucos pontos de vida e sem a proteção dos programadores. Enrik queria que eu realizasse um milagre. Pelo menos ele acreditava em mim.
Entrei em um dos quatro terminais dispostos em círculo no centro da sala e me conectei ao MMR. Foram quase cinco minutos tentando uma conexão com o servidor, alguém tinha feito um péssimo trabalho ali. E por que diabos eu estava entrando sozinha?
Entrei na arena do jogo com uma shotgun e uma faca no inventário. O milagre tinha que acontecer logo, ou o avatar banido seria o meu. Corri por alguns segundos por um corredor até chegar a uma sala ampla iluminada por fogo. Quem, num ambiente futurista, usaria fogo para iluminar uma sala? Pulei para uma plataforma alta onde fiquei escondida procurando pelos outros dois jogadores. Desisti depois de alguns minutos, de qualquer modo seria difícil acertar alguém com uma arma tão ruim. Esgueirei-me com cuidado pelos corredores até encontrar uma área que se abria para um pátio. Parecia muito com daqueles tatamis orientais. Havia uma mulher no centro da área, parecia meditar com duas espadas colocadas a seu lado. O estranho é que não me lembrava de espadas naquele jogo, mas num servidor pirata tudo é possível.
Dei uma nova checada no inventário. Possuía munição para uns três tiros, e só. Havia uma lightning gun no outro lado do pátio, mas eu teria que derrotar aquela mulher primeiro. Ajustei minha arma e dei um tiro. Talvez tenha sido precipitada demais, pois errei o alvo por quase um metro.
Ela levantou os olhos e empunhou uma das espadas. Atirei uma segunda vez e ela desviou pulando. Enrik tinha razão ao dizer que os avatares estavam fortes demais. Só me restava mais um tiro. Corri na direção de onde havia vindo. Eu sabia que ela estava atrás de mim, não podia ouvir seus passos, o MMR não era assim tão detalhista em servidores não-oficiais, mas eu podia sentir de algum modo.
Cheguei até um salão onde encontrei munição para minha shotgun. Agora eu possuía vinte e seis tiros. Não estava tão mal. Pensei em subir em uma plataforma, mas foi tarde demais, minha adversária apareceu antes do que eu esperava. Perdi alguns pontos de vida, mas consegui acerta-la. Agora havia sangue espalhado pelo chão, ela levava vantagem em relação a mim, pulei para trás e descarreguei cinco tiros direto na cabeça da maldita. Nada. Ela me tirou mais um pouco de meus pontos de vida. Fiquei caída no chão, então descarreguei os outros onze tiros o mais rápido que pude. Vi uma bolha de sangue explodir em cima de mim, a tela de comando acusou um jogador fora de combate. Recebi uma mensagem de fora do jogo, Enrik avisava que só faltava mais um.
Levantei-me e procurei a minha volta algo que recuperasse meus pontos de vida. Encontrei alguns itens, mas ainda era um alvo fácil. Esgueirei-me por alguns corredores em que ainda não havia estado e encontrei rapidamente o segundo alvo, ia atacar, mas me dei conta que já não possuía munição para tal. Voltei para o lugar onde havia encontrado mulher. Não havia mais sinal da lightning gun, mas encontrei três espadas que serviriam bem ao propósito. Voltei silenciosamente para o lugar onde o segundo jogador se encontrava. Joguei uma das espadas. Errei. Havia algo de muito estranho acontecendo com a minha mira perfeita.
Ele ficou procurando pela fonte das espadas voadoras, mas foi tarde demais, lancei a segunda e o acertei no ventre, ele caiu. Virei-me para correr, mas senti uma dor horrível na mão esquerda. O maldito ainda estava vivo e havia jogado um cutelo que agora se encontrava cravado na minha mão – deveria tê-la decepado, mas aquele jogo não parecia assim tão condizente com a realidade. Lancei a terceira espada e o matei definitivamente.
Arranquei o cutelo da minha mão e vi uma enxurrada de sangue que parecia real demais e então não vi mais nada. Eu havia sido trazida de volta.
Retirei os conectores do MMR com a mão direita, a esquerda permaneceu paralisada, mas eu não havia percebido. Enrik e mais três técnicos vieram correndo em minha direção com os rostos pálidos e os olhos arregalados. Só então tentei mexer minha mão e senti uma dor terrível. Foi aí que percebi que o terminal estava coberto de sangue.
A partir daí começaram a surgir cada vez mais problemas. O único lado bom dessa história foi ter passado um mês recebendo visitas diárias de Enrik. Ele ficou bastante preocupado com meu estado. Eu havia perdido muito sangue e o ferimento estava demorando a cicatrizar. Ninguém sabia explicar o que havia acontecido. E o mais bizarro de tudo é que eu havia voltado sem que ninguém desse o comando para que eu saísse do jogo, simplesmente aconteceu de modo aleatório. Não conseguiram localizar os dois junkies com quem eu havia lutado. Eles sumiram da rede sem deixar vestígios, assim como aquele servidor estranho.
Daí em diante as coisas só foram piorando. Vários hellas foram feridos, desde arranhões até membros decepados. Todos em servidores piratas que desapareciam após sermos jogados de volta à realidade, mas o defeito parecia não afetar os usuários domésticos.
Já éramos quinze fora de combate quando aconteceu a primeira morte. Uma hella chamada Belle recebeu uma missão dentro de um jogo de corrida de carros. Ela era a número um naquele jogo, mas o avatar inimigo foi melhor e a jogou para fora da pista, o carro capotou e ela só conseguiu pronunciar três palavras antes de morrer dentro do terminal no MMR: Alfadur, morte e berseker. Claro que ela já estava mais para lá do que para cá quando disse isso, mas intrigou alguns técnicos por um bom tempo.
Confesso que não chorei pela morte dela, era só mais um game over. E o game over de uma das minhas maiores rivais. Não há tempo para chorar nem pelos amigos nessa vida, que dirá por um inimigo. Mas Enrik passou semanas em uma atitude negativa e depressiva. Ele parecia entregue ao desespero, e eu desejava ardentemente que fosse pela nova falha que o MMR vinha apresentando, se bem que não havia afetado nenhum usuário, mas era questão de tempo, ele me disse em uma das raras vezes até ali em que tivemos uma conversa de verdade.
Eu ainda estava no hospital me recuperando e passando por novos testes. Ele apareceu para saber do meu estado de saúde. Suponho que estivesse fazendo isso com todos. Mas daquela vez foi diferente, ele não apenas falou com o médico e me fez perguntas genéricas sobre como eu me sentia, ele se sentou em uma cadeira ao lado da cama e suspirou. Parecia mais pálido do que o comum, os olhos vermelhos de noites mal dormidas e as roupas amassadas. Perguntei se estava tudo bem e ele disse que não, não ia nada bem. A carga da resolução desse novo problema estava totalmente concentrada nas costas dele, e ele simplesmente não sabia o que fazer. Havia revisado protocolos e códigos fonte sem achar falha nenhuma, analisou linhas de comando minuciosamente e parecia tudo normal. Lembro de ter sugerido que talvez a falha estivesse nos servidores piratas, e é claro que ele já havia considerado essa hipótese, mas essa parte não era responsabilidade dele, havia técnicos especializados em fechar essas conexões e banir jogadores, e essa equipe também não havia detectado nada de anormal naqueles servidores.
Enrik não estava nada bem, e eu lhe disse isso. Sugeri que descansasse um pouco, tomasse alguns remédios para dormir, mas ele sorriu e disse que não era preciso, e ele estava certo, afinal o cérebro dele não havia sofrido danos por causa do sistema e do Alfadur (médico nenhum me convence de que não há nada de errado). Ele acabou me confidenciando que também começara a desenvolver um leve vício pelo MMR, recomendei que tivesse cuidado, às vezes fugir pode ser a pior escolha, principalmente se for na direção a uma realidade não concreta.
Deixei o hospital três dias depois com alguns movimentos limitados, mas disseram que isso passaria com o tempo e dessa vez acertaram, algumas semanas depois e eu já não sentia mais nada, apesar de restar uma cicatriz, que fiz questão de que deixassem ali. É claro que nesse tempo todo aconteceram mais mortes, até decidirem deixar de lado os junkies presos em servidores piratas e preservar a integridade física dos hellas. Foi a decisão que trouxe a segunda grande crise, e desta vez o público tomou conhecimento.
Junkies começaram a morrer pelo mundo todo. Quando sua mente não consegue deixar o jogo, seu organismo para de sentir as necessidades básicas, e você enfraquece até morrer de desidratação ou inanição. Foi divulgado na imprensa que apenas os servidores não oficiais apresentavam tal defeito, mas ninguém acreditou. Uma equipe de um grande jornal investigou a fundo o caso, inclusive infiltrando-se em vários setores da Hi! Corp.. Eles descobriram os hellas e as falhas do sistema, mas a morte dos System Cleaners continuou um segredo.
É claro que essa era uma nova gerações de junkies, quando fiquei presa no sistema, eu ainda conseguia sair do jogo por alguns minutos, e esses eram um inferno. Era como vagar em um pesadelo. Meu corpo seguia sozinho a direção que precisava ir para se manter vivo, então eu voltava para o MMR cambaleante e afundava naquele sonho fantástico até que meu organismo gritasse novamente pela sobrevivência. Foi assim por três semanas, até que Enrik e o Alfadur me libertaram. Lembro-me apenas de acordar em um terminal portátil – de uso doméstico – em uma sala que me pareceu bastante estranha, me arrastei até a janela e perdi o fôlego ao ver a cidade com suas enormes torres de metal, vidro e concreto. Foi a última visão que tive do mundo lá de fora, pois algumas horas depois ouvi batidas na porta que me fizeram tremer, não era nada comum para mim. Três homens vestidos com jalecos brancos arrombaram a porta e contiveram meus gritos desesperados com uma injeção.
Os novos junkies não conseguem deixar o jogo nem quando seus corpos clamavam pelas funções mais básicas. Eles parecem não sentir nada disso, e as causas das mortes são diversas. Era um pesadelo ouvir a cada dia que mais um usuário havia morrido em um servidor pirata. As vendas caíram drasticamente, juntamente com o número de jogadores. O que nos salvou da total ruína foi o fato de várias pessoas terem achado que aquilo era uma mentirada para fazer diminuir o número de servidores não-oficiais.
O número de hellas também foi reduzido de modo drástico, sem muitos jogadores já não havia a necessidade de um número grande de System Cleaners. Se antes éramos 400, tornamo-nos 50. Muitos foram simplesmente atirados no mundo real sem serem preparados para isso. Após meses e anos de repressão, sem poder ao menos se comunicar com o mundo de fora, essas pessoas eram obrigadas a formar uma vida sem ajuda alguma. Eu tive a sorte – ou não – de estar entre os 50 remanescentes. Por um lado foi bom, não precisaria construir uma vida sem uma base e passava cada vez mais tempo com Enrik solucionando problemas. Mas por outro, não veria o mundo lá de fora. O mundo que por dois anos eu desejei conhecer.
Cada vez o número de trabalho dos hellas diminuía, mas eu tinha a impressão de Enrik parecia cada vez mais abatido, havia emagrecido um bocado, suas roupas já estavam largas e ele não se vestia mais com o esmero de antes. Mas continuava a me encantar de um modo estranho. Conversávamos cada vez mais, talvez ele também sentisse falta disso. Ninguém é uma ilha.
Não precisei perguntar o que estava acontecendo para deixá-lo daquele modo, ele simplesmente acabou desabafando. Normalmente as lembranças ficam confusas na minha cabeça – isso quando consigo lembrar das coisas – mas a memória daquele dia está estranhamente real e exata.
Entre os gigantescos prédios ultra-modernos do complexo tecnológico existem alguns pequenos jardins, Enrik me disse que existem milhares daqueles espalhados pelas cidades do mundo, uma tentativa um tanto quanto frustrada de conter o aquecimento dentro das cúpulas onde fomos obrigados a viver depois de séculos de devastação desmedida.
Sempre gostei daqueles mini bosques, de algum modo me lembravam aquele mundo que existe dentro do MMR. E era também um bom lugar para se fugir da agitação dos prédios principais. Encontrei Enrik por ali, estava cortando caminho pelo meio do jardim em vez de contorná-lo, como todos faziam. Naquele dia em especial ele parecia pior do que nos anteriores. Passara o dia todo correndo de um lado para o outro resolvendo problemas que não deveriam ser dele. Mas mesmo com toda a pressa, ele resolveu parar e conversar, não iria agüentar muito tempo naquele ritmo.
Naquele dia lembro-me de ter reparado que ele tinha a barba a fazer e seus olhos cinzentos pareciam apagados. Eu me entristecia de vê-lo assim. Cortava-me o coração saber que ele sofria de algum modo, era como se eu quisesse sentir aquilo para aliviar o peso daqueles olhos que eu sempre admirei.
─ O que faz por aqui, Synn? – ele me perguntou de um modo gentil. Se bem me lembro, estava sentada na grama, encostada em uma árvore olhando o céu cinzento que mal deixava transparecer o sol.
─ Fugindo – respondi simplesmente.
Ele pareceu sorrir. Um sorriso cansado, mas ainda assim um sorriso.
─ Posso me juntar a você? – perguntou. Foi a minha vez de sorrir quando ele se sentou ao meu lado.
─ Não seria bom se todos os lugares fossem assim? – eu murmurei depois de algum tempo de um silêncio tranqüilo e estranho.
─ Antigamente era assim, sabe? Dizem que o céu era azul e que havia árvores em todos os lugares. Não essas experiências genéticas, mas árvores de verdade.
─ Em alguns lugares dentro do MMR ainda é assim...
─ Ele foi feito para isso, criar uma realidade melhor. Não é apenas um videogame, foi projetado para melhorar a qualidade de vida das pessoas, facilitar tarefas simples... Mas comercialmente é mais viável que seja um console de última geração. Então virou esse problema, mas continua a dar dinheiro, por isso ninguém quer desistir dele.
─ Acabou fazendo o contrário, acabou com a vida de muita gente...
─ A sua inclusive, não é?
─ Eu não sei como era minha vida antes, não dá para saber se melhorou ou piorou.
─ Você se sente feliz aqui?
─ Às vezes. Eu me sinto bem ao lado de uma certa pessoa, mesmo que ela mal me dê atenção. Não consigo imaginar outra vida, mas gostaria de ver o mundo lá fora.
─ O mundo lá fora é... deprimente. Isso daqui também é deprimente. Não sei porque fui me meter nisso. Passo o dia inteiro vendo os mesmos códigos, as mesmas linhas de comando. Não há erro nenhum! Mas não é uma resposta satisfatória para eles. O MMR tem erros não explicados, e eles são muitos. Há outras empresas se aproveitando da situação, logo ele estará obsoleto. Estão gastando dinheiro que poderíamos estar investindo em pesquisas para um novo simulador de realidade.
─ Talvez o erro não seja o programa, mas os usuários.
─ É o mais provável, mas também não é uma resposta satisfatória. Tem que existir uma lógica para o problema e...
─ A mente humana é ilógica.
─ Exato. A minha vontade é jogar tudo para o alto, mas nem sei o que fariam comigo se eu escolhesse esse caminho – na hora não dei importância para aquelas palavras, mas tempos depois elas passaram a ecoar incessantemente na minha cabeça.
Nossa conversa parou neste instante, logo que um alarme começou a soar ao longe. Aquela volta abrupta à realidade me fez pular. Teríamos sérios problemas aquele dia, e eu nem imaginava o quanto.
Um grupo grande preso dentro do MMR em um mesmo servidor sempre é preocupante. Mais ainda quando três hellas, mesmo com a proteção dos programadores, acabam se tornando junkies em menos de uma hora de jogo. O Alfadur não fazia efeito, e estávamos em um servidor oficial. Desespero... Foi o que vi no rosto dos engenheiros e técnicos que corriam de um lado para outro rodando diagnósticos e arrancando os cabelos diante das telas que piscavam por toda parte.
Enrik gritava tentando coordenar aquela bagunça. Encostei-me na parede ao lado de outros oito System Cleaners e apenas observei fascinada aquilo tudo. Enrik sumiu em algum momento – quando a equipe médica entrou, eu suponho –. Um alarme soou quando um dos hellas começou a ter convulsões dentro do terminal. A expressão dele era de terror quando passou por nós com uma máscara de oxigênio rumo ao hospital.
Havia um terminal vazio agora, os outros eram ocupados pelos que haviam ficado presos. Ouvi alguém falar em reiniciar o sistema, mas retrucaram que era preciso uma autorização vinda de cima. E Enrik continuava desaparecido. Pelo menos até que senti uma mão me puxando para o lado e então para fora daquele inferno e dei de cara com seus olhos cinzentos com uma expressão decidida. Colocou uma pequena caixinha preta em minhas mãos e voltou para dentro da sala fazendo sinal para que eu o seguisse.
Pediram que eu entrasse, concentrariam todas as forças em mim. Queriam que eu libertasse os outros três, mas Enrik gritou que não queria ninguém mais ferido. Ele se importava comigo! E veio a ordem lá de cima. Nada de reiniciar, pelo menos até que não houvesse outra alternativa.
─ Não há outra alternativa! – Enrik berrava com o rosto distorcido e os cabelos bagunçados. Parecia tão belo e enlouquecido naquele momento...
O homem de gravata que aparecia na tela fez uma careta discreta e desligou sem nem ao menos responder. Silêncio. Os técnicos lentamente começaram a dirigir seus olhares fantasmas para mim.
─ Não. Nem pensem nisso. Synn não vai entrar. Mandem outro, mas não ela – respondeu lentamente sem tirar os olhos da tela, que agora exibia o logo colorido da Hi! Corp..
Passaram-se semanas de especulação. Por que não me enviar se eu era a única System Cleaner apta para aquele tipo de trabalho? Enrik não falava. Enrik estava calado, fechado para o mundo. Isso, é claro, quando aparecia para trabalhar, o que já não vinha acontecendo com tanta freqüência. A equipe de manutenção havia se rebelado do mesmo modo que ele. O saldo da recusa dos executivos foram cinco usuários domésticos mortos, e os três hellas continuavam lá dentro. Agora a companhia realmente tinha um problema, seus pontos de vida estavam acabando, o game over poderia ser a qualquer momento. O Alfadur tornara-se obsoleto. E o MMR seguira no mesmo caminho.
E então Enrik se foi. Não deixou vestígios. Apenas desapareceu no ar. AFK*. Não disse adeus, mas eu ainda tinha o pequeno cubo negro para me lembrar dele. Claro que nunca é o bastante. Senti sua falta como ninguém mais. E depois de um mês já me esquecera de tudo. Alfadur e seus efeitos, eu me esquecera do que acontecera seu criador e o sistema estava fora de controle. Nada de reiniciar, ninguém diz o porquê, ninguém sabe. Desligue os aparelhos e os dados se vão, embora eles não sejam assim tão importantes para uma empresa que está tão próxima de um game over.
De todos os lados vinham declarações de antigos funcionários. A verdade começava a aparecer. Um videogame que pode matar, um vírus que salva do vício, mas deixa cicatrizes. Há algo errado com o meu cérebro e jamais culparei Enrik, ele se recusou a utilizar o Alfadur quando soube das conseqüências, mas uma vez lá dentro, é difícil sair ou levar a vida do modo que se deseja. A decisão não foi dele.
O estranho é que nenhum dos antigos System Cleaners tenham se pronunciado. Talvez a empresa tenha os banido. Para sempre. Enrik tem medo que o mesmo aconteça com ele. Nós nos comunicamos, mas não sei onde ele está. Há três dias ele disse a imprensa que tem um arquivo que pode mudar o rumo de todas as especulações em relação à Hi! Corp.. Diz que se algo acontecer a ele há um cúmplice que revelará o arquivo. Encurralou a empresa. Ninguém sabe o nome de seu cúmplice, a única referência a seu nome foi feita a pouco tempo. Enrik disse que 2 de Junho será uma data importante. O público não sabe, ninguém sabe. Mas é a data em que o Alfadur me arrancou da prisão virtual, me libertou do MMR, talvez não totalmente. Mas foi a data em que Synn nasceu, em que a antiga pessoa que habitava esse corpo, seja lá quem fosse, morreu.
Enrik está morto. Não chorei sobre seu corpo. Ainda. Acho que choraremos juntos quando estivermos ambos mortos. Não importa. Alarmes soaram quando fugi do complexo. É claro que tive ajuda. O cubo negro está seguro aqui. Eu o abri, não é assim tão complicado. O mundo conhece sua senha, e eu seus segredos.
É claro que a Hi! Corp. nunca iria reiniciar o sistema, não queria perder seus dados. Seus valiosos dados, tão bem escondidos dentro da programação do MMR. As informações roubadas estavam todas ali, prontas para serem vendidas. Eles nos mataram por dinheiro. Enrik sabia, ele viu todos os códigos, revisou linha por linha, mas estava preso do mesmo modo que eu. Acho que é uma vingança. Tudo isso é pelo que fizeram a meu Enrik, à minhas esperanças, ao meu futuro, à minha mente.
Querem uma prova maior dos efeitos do Alfadur e do MMR do que estes? Já não sei o que é passado e o que está acontecendo nesse momento, não sei se já me alcançaram e estou sangrando de verdade, ou se ainda o farão... Ou se tudo isso é apenas um jogo. Mas é verdade, palavra por palavra, mesmo que por muitas vezes eu não saiba diferenciar o real do virtual, sei que é a verdade. Acabou, passos na porta e a certeza que meu contato achará o cubo... e o meu rápido relato. Queria ter podido contar tudo, cada detalhe de meu pesadelo, mas já há algum tempo que sei que eles estão próximos. Game over, Synn. Feche a porta mágica ao sair.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Synn
Postado por Geser Jr.
Marcadores: Ficção Científica
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